Destaque

O Dilema Do Superman

Toda a população do planeta Terra estava ligada aos seus aparelhos, seja tablets, notebooks, ou smart-glasses. Conectados à transmissão ao vivo da NASA, a mais importante da história. Enquanto isso os poucos canais de televisão restantes exibiam programas de culinária. A população estava apreensiva, tensa, e então a imagem surgiu e a Live teve início.

800px-ISS_Flight_Control_Room_2006.jpg            De início o apresentador falou sobre o que os levou à uma missão em Marte. Exibiu então um vídeo de dez anos atrás, mostrando uma sonda se aproximando de uma caverna no planeta vermelho. A Sala de Controle da NASA, repleta de computadores e funcionários cuidando de partes específicas da missão, estava sendo filmada junto ao grande telão por onde viam as imagens gravadas pela câmera da sonda. O mais importante daqueles funcionários era o piloto da sonda, e ele a manobrava pelos buracos do solo vermelho com cuidado. E a dirigiu para dentro da caverna, onde teve de acender as lanternas para enxergar o caminho adiante. Logo a câmera da sonda detectou formações rochosas regulares demais. Talvez porque não fossem simples formações rochosas, mas eram ruínas!

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Parte 2 – A Verdade Sobre Eras Passadas

Maria até hoje não entende o que havia acontecido, mas acredita ter sido coisa da máfia local. Talvez Alberto não tivesse pago Carlos como havia dito, e talvez eles tivessem ido lá para cobrar. Ou talvez os homens que devolveram o artefato queriam o dinheiro de volta, mas Alberto havia os ameaçados. Então eles retornaram para cobrar a dívida. Seja como for, a história de um artefato amaldiçoado era inconcebível para Maria, e até mesmo para a mãe de Raissa. Mas a verdade é que Alberto estava morto, e a perícia achava ter sido obra de algum animal grande com garras. O mais provável, disse a perícia, é que os mafiosos tenham levado um cachorro bem grande pra vingança. Um cachorro… Raissa sabia que não era um cachorro. Sabia que o artefato estava amaldiçoado. E sabia que deveria o levar de volta. E por isso ela prendeu sua tia no banheiro.

Enquanto Maria gritava, Raissa andou até a sala da casa, pegou o artefato e o observou melhor. Os desenhos eram hieróglifos retratando uma espécie de humanoides com longas caldas e com línguas compridas e bifurcadas. Raissa estava paralisada analisando o objeto, como se o tempo ao seu redor estivesse parado e só houvesse ela e o artefato no universo. Então ela desperta, retoma sua consciência, e corre para fora da casa.

Ainda era noite, e chovia como no dia anterior. Durante a corrida ela se deparou com diversos corpos jogados no chão, mas o número parecia menor do que vira antes. Seu tio não estava em lugar algum, nem debaixo da janela. Ela sabia o que acontecera, e mesmo assim correu em direção à caverna. Ou ela devolvia o artefato, ou as criaturas matariam sua tia também. Então ela adentrou no sombrio clima gélido da caverna, iluminada apenas pela lanterna de seu celular.

– Criança… – uma voz ecoou pela caverna. – Assustou alguns de meus súditos ontem. Um erro inconcebível. Foram severamente punidos.

A voz era grossa e heroica, ao mesmo tempo em que era aguda, metálica e diabólica. Uma confusão mental tomou Raissa de assalto. Ela não conseguiu me descrever com detalhes como era. Parecia vir de todos os lados, ela me disse. Não dava pra saber de onde vem, apenas vem. Assim como o timbre da voz, que era tudo ao mesmo tempo, como se na verdade não fosse nada. Ela tremia só de lembrar da voz da criatura.

– O que é você? – Ela teve a ousadia de perguntar, mesmo que suando de medo, apertando com força o artefato piramidal nas mãos.

– Me chamo CthuAza’Gosh – ele disse.

Tal nome era impronunciável em qualquer língua humana. Apenas ouvir aquilo era demais para o cérebro medíocre do ser humano. Raissa se esforçou para me traduzir o nome, adaptando para um português falável.

Raissa não via quase nada na completa escuridão. Observava apenas poucos metros à sua frente, e não havia nada na caverna. Nem aranhas, nem insetos, nem morcegos. Nada. A voz ecoava por todos os lados, e ela não sabia se vinha de sua frente, de trás, ou de seus lados. Sua mente começou a ficar confusa. Até que eles surgiram.

Dizer que são humanoides é correto, pois tem duas pernas, dois braços, um tronco e uma cabeça. Mas também tinham uma calda. Entretanto, dizer exatamente como eram foi difícil para Raissa. Disse que suas bocas se pareciam com a de crocodilos, no entanto a língua bifurcada se parecia com a de cobras. Eles tinham pequenas asas nas costas, talvez nem conseguissem voar com elas, de tão diminutas. Também tinham olhos de gatos, e uma pele que parecia ser feita de escamas, porém gosmentas e brilhantes.

Dois deles a seguraram pelos braços, enquanto CthuAza’Gosh surgia em sua frente, tomando o artefato de volta.

– Creio que isso seja meu – ele disse. – Você já viu mais do que qualquer outro ser humano pôde presenciar.

A criatura que estava à direita de Raissa fez um som que se parecia algo como Thyssyslishshassthmyss. Falava sempre pondo a língua para fora da boca. O da esquerda disse algo como Nasythissitsssaiss. Então CthuAza’Gosh respondeu, duramente, algo como Hthessythysthssyma.

– Eles acham melhor jogá-la na pilha de corpos que fizemos – disse ele com sua voz gutural, grossa, porém aguda, diabólica e heroica ao mesmo tempo. – Mas eu tenho uma ideia melhor. Sua mente não será capaz de conceber o que verá. Vou brincar com seu cérebro, criança.

– O que são vocês? – Ela tentou perguntar enquanto era arrastada caverna adentro. Queria sanar parte de suas infinitas dúvidas, antes que morresse.

– Somos os reais donos dessas terras – ele ergueu os braços escamosos enquanto andava. – Antes que os Anunnaki trouxessem o fogo dos céus, antes que o fogo subisse do centro de Nigl’tha, como chamamos este planeta, quem povoava este solo éramos nós! – Ele continuou andando, enquanto seus súditos arrastavam a pobre garota. – Fomos expulsos pelos Anunnakis… e eles plantaram aqui a semente que os originou. Vocês são cópias malfeitas de seres intergalácticos mais inteligentes que vocês. Nós fomos exilados no planeta Kara’lot… e de lá fomos expulsos também. Criamos portais que nos trouxeram de volta para cá. E aqui estamos controlando seu mundo.

– Ninguém sabe sobre vocês – disse Raissa. – Como controlam o mundo? – Ela sentia uma leve vontade de chorar, mas segurou.

– Somos presidentes, garotinha – CthuAza’Gosh se transformou em um ser humano, de terno e gravata, bem na frente de Raissa. – Somos soldados, criança – então assumiu a forma de um homem fardado. – Somos o que quisermos – retornou à sua forma reptiliana quase indescritível.

Raissa riu. Um riso leve, mas riu. E depois chorou. Quando suas lágrimas escorreram por suas bochechas e alcançaram seus lábios, ela riu novamente.

– Então vocês controlam nosso mundo por baixo dos panos?

– NOSSO mundo! – CthuAza’Gosh a corrigiu. – Nosso.

Eles finalmente chegaram onde queriam.

Raissa vislumbrou um cenário que jamais esqueceria. Havia uma enorme fogueira, e lá estava o corpo de seu tio, apenas com a cabeça para fora do fogo, queimando junto com vários de seus seguranças. O cheiro de carne e pele queimada era insuportável. Mas não havia só a fogueira de corpos. Envolta dela haviam diversos daqueles reptilianos dançando e transando enquanto outros batiam em tambores semelhantes aos das guerras medievais, no entanto, ainda mais assustadores. O som era uma mistura de batuque de escola de samba, com urros monstruosos e metálicos. Enquanto isso, cada um daqueles reptilianos transavam e gritavam. Um grito que parecia ser de uma criança assustada sendo agarrada por um velho maníaco. Gritos agudos, quase que de desespero. Mas Raissa sabia que não era de desespero. Era essa a interpretação que sua mente fazia. No entanto, aquelas criaturas estavam se deliciando em suas transas grupais. Utilizavam seus órgãos genitais, semelhantes aos humanos, porém também utilizavam suas caldas e pequenas asas no ato sexual. Eles dançavam e transavam na luz da fogueira, no cheio de morte, e no som de urros metálicos.

Raissa gargalhou. Uma gargalhada descontrolada.

Ela se encurvava para frente, flexionando o abdome, tentando parar de rir, mas não conseguia. Ela olhou para a fogueira e então começou a chorar. Lágrimas escorreram, e ela voltou a rir. Um riso tímido, e depois uma gargalhada. E então ela começou a gritar, chorar e gargalhar ao mesmo tempo.

– Isto é a chave de nosso portal – CthuAza’Gosh exibiu a pirâmide. – Cuhsisthsiysssthly! – Ele gritou, e jogou o artefato para o meio da multidão de répteis. Um deles agarrou o artefato e o jogou dentro da enorme fogueira. – Assista! – Ele segurou a cabeça de Raissa pelo queixo, e ela sentiu suas garras afiadas e sua pele escamosa e gosmenta. – Assista!

O fogo começou a tomar forma, como se tivesse vida. E então figuras começaram a surgir no fogo. As principais cores vistas eram o azul, o verde e o vermelho do fogo. Essas cores se misturavam e criavam a ilusão das outras, formando cenários realistas nas chamas. Então Raissa viu um planeta verde, repleto de vida.

– Este é Nigl’tha, antes que os Anunnakis o tomassem de nós! – Disse CthuAza’Gosh.

Então surgiu uma bola de fogo vinda do céu que atingiu o planeta. E ele se tornou vermelho, e depois se tornou azul. O fogo muda, e mostra outro planeta verde.

– Este é Kara’lot. Vocês o chamam de Marte.

O planeta foi atingido por um canhão de luz e então perdeu toda sua gravidade, toda sua atmosfera, toda sua cor, e se tornou um deserto vermelho.

– Nos roubaram dois lares, criança. E agora vamos retomar o nosso. Nem que nossos planos demorem décadas, séculos ou mesmo milênios. Somos pacientes…

Raissa estava calada, ainda de boca aberta. Quando o fogo retornou ao estado normal, ela voltou a ouvir aqueles sons de gritos fantasmagóricos e desesperados, juntamente com os tambores de urros metálicos. E sentiu o cheiro de sexo reptiliano e corpos queimados. Ela começou a se debater, tentando fugir das garras das criaturas, mas sem sucesso.

– Vou libertá-la, criança – disse CthuAza’Gosh. – Será chamada de louca! – Ela começou a chorar. – Será internada! – Ela começou a rir. – Muitos vão acreditar em você, mas serão infinitos aqueles que a desprezarão! – Ela gritou e berrou até que ficasse rouca. – Eles vão rir de você, e depois sentirão pena! – Ela chorou, riu, gritou, e depois gargalhou. – E será deixada de lado, como um cão faminto. Ninguém irá se importar com você! Até que apodrecerá sob a terra de Nigl’tha!

Os répteis a largaram e ela desabou no chão. Começou a se estremecer, se debater, gritando e gargalhando. Até que não aguentasse mais ficar acordada, e então desmaiou.

 

Raissa acordou no hospital, e após espancar alguns médicos, foi levada à um manicômio. Sua mãe entrou em depressão ao ver o estado da filha. Seu pai fez de tudo para curá-la, procurou os melhores especialistas da Terra, mas nada a fez melhorar. Sua tia jamais acreditou na história dos reptilianos. Mas foi sua mãe quem me chamou. Raissa foi encontrada pelada na beira de uma estrada, antes de ser internada. Gritava que a presidenta era um réptil. Dizia que não há o que temer. Eles virão, eles virão!, é o que repetia aos berros roucos.

– Obrigado pelo depoimento, Raissa – beijei sua testa, após ter a crueldade de fazê-la se relembrar de tudo o que passara.

– Deive… – ela me olhou deitada na cama de seu quarto, com um sorriso na boca e lágrimas nos cantos dos olhos. – Acredita em mim?

– Há coisas na Terra e no céu que são inimagináveis – eu disse antes de me despedir e sair do quarto do manicômio.

Quando fechei a porta ouvi ela gritar:

– É verdade! Eu não estou louca, seus idiotas! Eles virão! ELES VIRÃAAAO!!!

Parte 1 – A Maldição Inominável

Raissa é uma jovem moradora de um manicômio. Sua mãe me chamou para investigar um estranho caso que deixou a jovem em estado de loucura, obrigando a família a interná-la. Eu interroguei a mãe, a tia e a pobre Raissa depois. Claro que as duas mais velhas não entendiam, e nem acreditavam, na real história que acontecera. Mas Raissa vivenciara tudo, e enlouquecera com o que vira. Irei relatar agora minha conclusão do acontecido após um mês de investigação.

 

O caso acontecera há dois anos, na casa dos tios de Raissa. Ela tinha dezesseis anos na época, e viajara sozinha para a fazenda dos tios, no interior de Minas Gerais. Ao descer do ônibus e pegar um taxi para o local afastado do centro da cidade, ela se deparou com a entrada da fazenda guardada por dois seguranças armados. Logo ela desceu do taxi e pediu permissão para entrar. Quando seu tio soube que se tratava de sua sobrinha, logo permitiu o acesso. Ela vislumbrou um cenário maior do que imaginava. A fazenda era gigantesca, com mais terreno do que construções. Havia uma cachoeira, alguns rios, um lago, e até mesmo uma caverna no maior morro do local. Ela estava ansiosa para explorar tudo aquilo.

Seu tio Alberto a proíbe de visitar a caverna, pois ninguém entrava lá; e além disso diziam ter insetos perigosos e morcegos em seu interior. Claro que isso só aumentou a curiosidade da jovem. Sua tia Maria tentou acamá-la dizendo que haviam outros lugares para serem explorados, como a cachoeira, por exemplo. A verdade é que a cachoeira não guardava segredos, pois de longe podia-se ver tudo o que havia para ser visto. Mas a caverna, escura e inexplorada, era uma fonte de aventura irrecusável. Raissa TINHA que entrar nela.

Ao anoitecer Raissa permanecia em seu quarto, repousando, lendo contos de terror, quando ouviu seus tios brigando. Parecia uma oportunidade, então decidiu sair do quarto e ouvir parte da conversa. Ela andou pelos corredores sombrios da casa principal da fazenda, e parou em uma quina, a fim de ouvir a discussão.

– Alberto, cê tem que pagar o Carlos, homem! – Maria gritava com ele. – Vamos ficar sem os seguranças se você não pagar!

– Maria, se acalma! – Alberto gritou de volta.

– Me acalmar? E se a gente ficar sem os seguranças, homem! Você se meteu nessa merda de máfia e agora quer que eu me acalme?

– Eu vou dar um jeito, tá? Vou pagar o Carlos, pode deixar, não se preocupa.

– Vai pagar quando? – Maria gritou. – Ele tá pedindo isso faz tempo! Estamos atrasados!

Raissa não perdeu tempo e correu de volta para o quarto. Abriu a janela, e viu a escuridão da noite no terreno da fazenda. Ligou a lanterna do celular e pulou a janela. Andou furtivamente, procurando não chamar atenção dos guardas que trabalhavam para seu tio. A jovem andou pelo mato alto até alcançar a tão cobiçada caverna. Então adentrou na completa escuridão.

Estranhos sons a receberam logo na entrada. Uma mistura de rugido com gargalhada, um tanto metálico. Ela permaneceu caminhando, até que o chão deixasse de ter terra, e se tornasse pura rocha. A lanterna do celular era fraca, iluminando apenas um pequeno círculo à sua frente. Raissa via lesmas pelas paredes, aranhas nos tetos, mas nenhum morcego. Continuou andando até se deparar com estranhos vultos à sua frente. Ela se assustou, pois pareciam ter sua altura. Ao mirar a luz para eles, seja o que fossem, tinham fugido e deixado cair no chão um estranho objeto.

Tais animais, ou seja lá o que fossem, não puderam ser observados completamente por Raissa. Ela viu apenas uma silhueta aparentemente humanoide. Ela tremia, estava arrepiada, mas mesmo assim andou até o objeto no chão. Ela sentiu um cheiro estranho. Algo ruim, que jamais sentira antes. Algo indescritível, foi o que me disse. E então o som. Aquele barulho estridente. Um rugido agudo que penetrava em sua mente. Raissa pegou o artefato, uma pirâmide amarelada com tons cinzentos, como se fosse algo extremamente velho, antigo, ancestral. Tinha desenhos nas laterais, mas ela não prestou muita atenção no artefato. Simplesmente o pegou e correu em direção à saída. Foi quando ouviu um novo rugido.

Dessa vez um rugido com raiva. Diferente dos outros. Um som que ecoou pela caverna, vindo das profundezas. A fez se estremecer e correr ainda mais. Sem olhar para trás, ela saiu da caverna e se deparou com a escuridão chuvosa da fazenda. Com o artefato da caverna em mãos, e sem saber de quem era aquele som bizarro e indescritível, Raissa correu como nunca antes.

 

A chuva forte atrapalhou Raissa na tentativa de enxergar o chão. Seu celular poderia não funcionar mais caso ficasse exposto à forte chuva. Ela tentava, em vão, observar detalhes do chão para não tropeçar, mas era impossível. Seu corpo ainda tremia, seu coração estava mais acelerado que o normal, e seu pulmão estava descompassado. Aos tropeços, e após cair algumas vezes no chão de grama sobre lama, ela finalmente alcançou a janela da casa. Mas antes de subir na janela, uma estranha luz surgiu no horizonte.

Era o Sol.

– Raissa! – Gritou Alberto, seu tio. – Entra logo em casa, garota! Tá ficando maluca?

A jovem pulou a janela e caiu dentro do quarto, onde sua tia e seu tio estavam de pé, bufando de raiva.

– Onde você estava? – Seu tio proferiu cada silaba pausadamente.

– Eu tava na caverna, eu…

– Na caverna, garota? – Sua tia se espantou. – Tem morcegos lá, criança! Cê não pode entrar lá sozinha! E você tá toda suja!

– Você passou a noite toda lá? – Alberto perguntou. – Que horas você saiu?

– Eu saí enquanto vocês discutiam na sala.

– O dia já tá amanhecendo! – Alberto gritou com ela apontando para a janela do quarto e para o Sol surgindo. – Você ficou louca de dormir na caverna?

– Mas eu não dormi na caverna, tio – ela tentou se explicar. – Eu só entrei, vi uns vultos estranhos, peguei isso aqui – ela amostrou o artefato – e saí correndo.

– Oque que é isso? – Tomou da mão dela sem pedir. – Que treco é esse? – Alberto observou a pirâmide.

– Encontrei dentro da caverna – ela disse. – Tem criaturas lá dentro, tio. Bichos que fazem barulhos assustadores – ela ainda estremecia ao se lembrar.

– Maria, isso é algum achado histórico – ele brilhou os olhos. – Se eu vender isso aqui, vou poder pagar o Carlos!

– O quê? Vocês vão vender? Não!

– Quieta! – Alberto a interrompeu. – Você fugiu de casa sem autorização! Se você some aqui na fazenda, seu pai me mata, garota! Está de castigo, não saia do quarto!

 

Alberto fazia parte de um esquema mafioso na região. Antigamente era comum os fazendeiros contratarem bandidos para atrapalhar nas colheitas dos concorrentes da região, e roubar equipamentos e sementes caras. Logo surgiu Carlos, um homem rico que oferecia segurança à um preço justo. Era dono de uma empresa privada e legalizada. No entanto, chamavam de Máfia, pois ele comandava a região, já que os seguranças trabalhavam primeiramente para ele, e depois para os donos das fazendas. E Alberto já estava atrasado no pagamento. Todos naquela região estavam sob a mesma proteção; mas quando um fica sem ela, todos o roubam e destroem sua fazenda. Era uma questão de vida ou morte. Ou ele pagava Carlos, ou deveria fugir da região. E o artefato foi de extrema ajuda.

A colheita do mês anterior não havia sido satisfatória para pagar Carlos, e Alberto já não tinha dinheiro nem para pôr comida na mesa. Maria discutia com ele regularmente. Tudo parecia se normalizar durante o verão, mas até lá as coisas ficariam apertadas. No entanto, o artefato mudaria tudo. Logo Alberto dirigiu para a cidade e encontrou um comprador de relíquias antigas. Ele vendeu o artefato por um preço capaz de pagar Carlos e ainda sobreviver por mais dois meses sem a colheita. Poderia investir em sua fazenda. Aquilo fora um presente de Deus, ele sabia disso.

Antes de voltar para casa, ele acertou as contas com Carlos, e retornou com uma mala preta cheia do dinheiro que sobrara. Maria o recebeu de braços abertos, feliz pela conquista do dia. Durante o almoço o casal ria atoa. Raissa não estava tão contente assim, seus pensamentos e lembranças a perturbavam. Mas ela se concentrou em esquecer aquilo tudo. Seria melhor assim.

 

Ao entardecer, enquanto Raissa lia contos de Lovecraft deitada na cama, ouviu um estranho movimento na entrada da fazenda. Foi até a janela do quarto e observou que um carro entrara e estacionara em frente à casa. Seu tio logo foi recebê-los. A conversa se iniciou calma, e um dos homens tinha a pirâmide em mãos, tentando devolvê-la. Alberto recusava, e chegou a gritar que jamais devolveria o dinheiro. Raissa ouviu que eles queriam devolver o artefato, queriam se livrar dele. A conversa esquentou, e eles jogaram o artefato no chão, entraram no carro e foram embora. Alberto pegou o artefato do chão e o levou para casa. Raissa correu para ouvir a história.

– Disseram que é amaldiçoado – disse Alberto. – Baboseira sem cabimento. Melhor pra mim, agora posso vender de novo e fazer ainda mais dinheiro. Acredita que nem queriam o dinheiro de volta, amor?

– Tio, eu tenho que devolver pra caverna! – Raissa gritou.

– O quê? Mas não vai mesmo! Volta pro quarto, garota! Eu vou vender isso aqui de novo amanhã.

 

Ela retornou, de cabeça baixa, pensativa, e com medo. Se aqueles homens haviam devolvido o artefato, sem ao menos revendê-lo, era sinal de que queriam se livrar dele com urgência. Entretanto, Raissa não podia fazer mais nada. Apenas respirou fundo, relaxou o corpo, e retornou a ler seus Mitos de Cthulhu. No entanto, algumas horas depois, sua leitura foi interrompida por um tiroteio. Ela se jogou no chão para não ser atingida por uma bala perdida, embora nenhuma bala tivesse entrado em seu quarto. Ela pôs as mãos nas orelhas para evitar o som alto dos estampidos, e então abriu o olho e viu sua tia agachada entrando em seu quarto.

– Querida, se acalme, seu tio foi ver o que é. Se acalme, por favor.

Raissa tremia de medo. Ninguém quer morrer, especialmente quando se tem apenas dezesseis anos, repleto de sonhos e esperanças com a vida. E então o tiroteio cessou. A calmaria tomou conta do lugar. Apenas o canto dos passarinhos e a respiração ofegante de Raissa e Maria eram escutados. Mais nada. Raissa decide abrir a janela para ver o que acontecera.

Alberto surgiu sangrando nela.

Pôs as mãos ensanguentadas no vidro, as escorregando e deixando um rastro vermelho.

– Leva o artefato pra caverna! – Ele falava sem fôlego, quase sem vida. – Leva, garota! Antes que seja tarde demais!

Seu tio desabou sem vida no chão. Agora ela via, através do vidro sujo de sangue, a fazenda repleta de corpos.

– Pelo amor de Deus… – Maria desabou no chão enquanto chorava. – Nãaaaao!

Raissa olhou novamente para a caverna, e viu que o corpo de um dos seguranças estava sendo arrastado para dentro dela. Um vulto negro o puxava pelas pernas.

E era exatamente para lá que ela estava indo.

 

A Hipocrisia Divina

– São pecadores imundos! – Gritou o Pastor George para toda a igreja.

A igreja estava lotada naquele dia em especial. Por mais que a população já tivesse perdido as esperanças de uma vida melhor há décadas, os religiosos permaneciam fiéis às suas religiões e deuses. E no século XXII isso só aumentou. Quem mais faturou com isso foi o Pastor George. De fato, o Rio de Janeiro já tinha um longo histórico de discriminação com classes baixas, negros e qualquer tipo de minoria; não que as classes baixas e os negros fossem uma minoria numérica. Mas com a descoberta de espécies extraterrestres as coisas começaram a mudar.

No início os pastores ganharam dinheiro pregando sobre o fim do mundo. E George era bom nisso. Depois alguns desses aliens passaram a conviver com os humanos em colônias de mineração e exploração além-mundo. Os pastores falavam sobre conspirações, pregavam que os aliens eram os demônios que desciam dos céus. E George também era bom nisso. Mas o que ninguém esperava era que essas raças alienígenas pudessem viver na Terra. Alguns, uns poucos escolhidos, eram convidados ao nosso mundo a fim de contribuir com sua inteligência e tecnologia. A Terra avançou muito nessa época, e a discriminação também. E claro, o Pastor George pregava que aquele tipo de ser não pertencia à Terra, e deveria ser banido do planeta. Mas, por incrível que pareça, as coisas ainda podiam piorar.

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Parte 2 – Contato Imediato de Quarto Grau

 

Parte 2


Contato Imediato de Quarto Grau

 

 

A noite foi longa e eu nem percebi. Não me lembro de ter sonhado, ou acordado no meio da noite. Me lembro apenas de ter sido acordado de forma bruta. Tomei um susto com um grito. Ao me levantar fiquei um tempo sentado na cama esperando o coração desacelerar. Mas não tive tempo para isso, pois meu pai gritara novamente.

– Levanta, moleque! Teu avô tá te chamando lá fora! Parece que deu uma merda e tu sabe de alguma coisa.

Me levantei da cama na hora. Sabia que tinha algo a ver com a luz que eu vira. Eram os alienígenas, tinha que ser!

– Eu já vou, pai.

– Se eu descobrir que tu fez alguma merda, moleque, juro que eu te mato de porrada!

Saí de casa correndo e encontrei meu avô no estábulo conversando com minha mãe. O estábulo era feito de madeira, repleto de pilastras que sustentavam o teto. Eram usadas também para fazer os cercados onde os cavalos ficavam. E lá o velho Albuquerque estava apoiado em ripas de madeira olhando para o campo com círculos queimados e sem vacas.

– Deive! – Meu avô me chamou. – Vem aqui, garoto!

– Viu o que falei ontem? – Perguntei ao me aproximar.

– Aliens? Não!!! – Ele gritou. Se virou e olhou para o campo sem vacas. – Tô vendo meu campo queimado com esses círculos infernais!!! E minhas vacas sumiram!!!

– Filho, o que você viu? – minha mãe perguntou.

– Eu vi a nave deles subindo e… – fui interrompido pelo meu avô.

– Não me diga… – disse com tom de sarcasmo. – Me poupe de ETs, garoto! Quero ouvir a verdade! Alguém me roubou? Alguém invadiu minha casa?

– Foi a nave, vô – tentei explicar novamente. – Quando eu vi, ela estava subindo. As marcas estavam no chão e as vacas tinham sumido.

– Tudo deve ter acontecido antes do Deive chegar, seu Antônio – minha mãe tentava explicar toda situação.

– Eu vi tudo! Eu juro que vi tudo! – Como ninguém acreditava em mim, me desesperei. Naquele momento odiei ser uma criança. Mesmo tendo visto a verdade fui desacreditado, afinal, que crédito poderia ter uma criança?

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Parte 1 – Contato Imediato de Segundo Grau

 

Parte 1


Contato Imediato de Segundo grau

 

 

 

 

Passei um bom tempo da minha vida tentando decidir se iria escrever minhas histórias. Cheguei à solução de que é melhor contar tudo, mas em partes. Hoje estou velho, cansado, e talvez não tenha mais o que fazer para salvar este planeta. O que me resta é narrar minhas aventuras. Para começar meu nome é Deive Albuquerque. Sou (ou era) jornalista, pesquisador, investigador e blogueiro. Não fosse pelos meus esforços, a família Albuquerque teria caído no esquecimento.

Meu pai se chamava Marcos Albuquerque, e era um bêbado safado, do tipo que chega em casa e bate no filho pequeno e na mulher logo após a trair em um puteiro qualquer. Sua principal ocupação era beber em botecos com os amigos de cachaça. Portanto quem enchia a dispensa da casa era minha mãe. Seu nome é Samara Albuquerque, e seu tormento eterno teve início em um casamento arranjado com meu pai. Naquela época a jovem Samara de Oliveira conheceu um homem alto e forte com um pai milionário. O casamento arranjado não foi um tormento na época; mal conhecia Marcos, mas conhecia muito bem a herança que estaria prestes a ser dona também. O problema surgiu anos depois, quando Marcos se tornou um alcoólatra vagabundo.

Meu avô desgostou do próprio filho e decidiu escrever um testamento onde seu filho não receberia um centavo sequer. Burrice de meu pai. Mas minha mãe não ficou para trás na moda de cometer idiotices e logo arrumou um filho! Pois é, eu nasci em um momento turbulento da vida do casal. Meu pai passou a beber e beber, enquanto minha mãe trabalhava para manter as contas em dia. E eu apenas estudava, isso quando não estava apanhando de meu pai.

O canalha chegava todo dia bêbado em casa e logo buscava saber quanto minha mãe recebeu após a noite de trabalho. Se fosse pouco ele botava o sinto para trabalhar em suas costas. Na época eu era pequeno e não entendia no que ela trabalhava. Se eu defendesse minha mãe, apanhava junto. Mas houveram diversas vezes onde eu simplesmente apanhei sem nenhum motivo claro. Anos depois fui entender com clareza. Minha mãe sustentava a casa e era o prazer noturno de Marcos quando ele não conseguia nada em suas noitadas. Já eu era apenas um moleque que não trabalhava, e apenas dava despesa. Era isso que me resumia: despesa. Até o dia em que meu avô nos ligou e tudo mudou.

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Epílogo

 

Submundo – Ano 835.

 

 

A escuridão tomou conta de Curupira, as trevas o cercaram, e o sofrimento o apunhalou no coração. Aquela forma magricela e desnutrida mal conseguia andar. Caminhava se rastejando de pé. Via almas sofrendo por onde andava, e seus gritos de quem pagava pelos pecados em vida durante a morte eram tenebrosos. E ele andou até que ela o avistasse. E a voz dela era ainda mais assustadora. Uma voz poderosa.

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10 – A Última Batalha Dos Sacis

 Andrigor – Caverna do Boitatá – Ano 835. 

 

 

O Boto, após retomar sua forma original, havia assumido a forma do Curupira. No entanto, ao fazê-lo, o Deus se apossou de seu corpo. O poder de Curupira era formado pela união de corpo e alma. Embora o corpo estivesse aprisionado no Submundo, sua alma estava ali presente, e apenas isso já significava imenso poder. No entanto, era apenas uma das preocupações de Ária. Pois agora só havia ela e Votu para combater Curupira e sua horda de sacis que ele convocara.

Ária viu que da saída da caverna a luz era bloqueada pela silhueta de um exército de sacis que saltitavam para dentro da caverna. Aquelas tropas alcançaram e rodearam o Deus. Um mar vermelho surgiu como um tsunami de sangue. Agora era Ária e Votu contra Curupira e seu exército de sacis prontos para alcançar Boitatá.

– Uma pena Rodrik ter que morrer – disse Curupira fingindo estar triste. – Eu até tinha esperanças que vocês dois terminassem juntos, sabe. Mas… a vida não funciona assim. Se os Deuses não são justos, por que ela seria? – Deu uma leve risada.

– Você matou meu amigo… – Ária chorava ao se lembrar da promessa que fizera para Rodrik de que jamais mataria outra pessoa novamente. Se lembrou de seus momentos juntos… de quando dormia com ele. Se lembrou de quando quis beijá-lo, e não o fez.

– Acabou, Ária – disse Curupira. – Mas você ainda tem o poder. Junte-se a mim.

– Não faça isso, Ária – disse Iara ao entrar na caverna seguida de um exército de Caiporas, tão grande quanto o exército de sacis do Curupira. – Ele tem medo de você e a quer como aliada.

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9 – Promessas Devem Ser Cumpridas – A Batalha dos Sacis

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Andrigor – Vila do Templo de Pedra – Ano 835. 

 

 

Quando Ária acordou, já havia se decidido, e então esperou pacientemente enquanto Rodrik dormia. Foi então que o paladino abriu os olhos e viu a amiga o fitando ao seu lado na cama.

– Bom dia… – Esfregou os olhos.

– Não podemos ir – disse ela.

– O quê?

– Não podemos ir pra caverna – disse Ária. – Deixa isso pra lá. Vamos voltar pra Vila Velha, Rodrik. Não somos heróis.

– Ária, do que você tá falando? – Rodrik se ergueu na cama. – Você não queria salvar nossa vila?

– Por que tem que ser a gente? Tem tantos heróis por aí. Dominik, o Herói, é um deles. Por que não ele?

– Você tem o poder de Nhanderuvuçú.

– Ele tem o poder dos Deuses Brancos!

– Ária, o que houve? – Rodrik a segurou pelos ombros. – Me conta.

– Eu vi ele de noite… Curupira. Ele falou comigo.

– O que ele disse?

– Se a gente continuar… – deu uma pausa buscando forças para falar. – Vai matar você na minha frente. – Ária não aguentou se segurar e chorou rapidamente na frente do amigo. Rodrik a abraçou procurando o que falar.

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8 – Mar Vermelho – A Batalha dos Sacis

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Andrigor – Vila do Templo de Pedra – Ano 835. 

 

 

O grupo retornou andando para Vila do Templo de Pedra após dois dias. A caminhada havia sido exaustiva e no final da jornada se depararam com a vila em chamas. Aldeões fugiam com suas famílias aos tropeços. O fogo consumia as casas e lojas. Ária, Rodrik e Ryan correram na frente, enquanto as Matintas e o caipora foram logo atrás. A caçadora, ao se aproximar, viu um mar vermelho de capuzes sobre corpos pretos e esqueléticos. Eram os sacis!

– Ataquem! – Ela gritou puxando o arco e percebendo que ainda estava sem flechas. Então sacou sua faca e avançou sobre os monstros.

Rodrik se defendia dos golpes usando seu escudo e atacava os sacis com sua nova espada, os cortando ao meio feito manteiga. Ryan lançava seus feitiços e encravava a ponta afiada de seu cajado no corpo dos sacis. Era possível ver outros paladinos e sacerdotes lutando ao longo de toda a vila, mas eram sacis demais. Surge então uma horda jamais vista por Ária. Ela com sua faca jamais poderia lidar com tantos.

– Vamos morrer desse jeito! – Ela gritou. – São muitos!

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